Bombeiros Voluntários de Cacilhas

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Fundação

A fundação do Serviço Voluntário de Incêndios em Cacilhas era um assunto falado e pensado há muito tempo, inúmeros factores interligavam-se entre si, fazendo de Cacilhas um pólo do desenvolvimento mercantil. Um número crescente de investidores, nacionais e estrangeiros, viam na “outra banda” um local privilegiado pela sua localização geográfica, sendo: Cacilhas, Ginjal, Margueira e o Caramujo, destinos de eleição pela frente ribeirinha que estes locais dispunham. 

 
Na Vila de Almada o serviço de incêndios era suportado pelo serviço municipal, que embora despose-se de duas bombas de incêndios, não contava com pessoal especializado no combate a incêndios. Não existia por isso qualquer material de salvamento em edifícios, ficando o socorro de vítimas ao cuidado do mais arrojado espectador, muitos são os relatos de autênticos actos de bravura. 
As grandes fábricas disponham do seu material de incêndios, porém era escasso o número de empresas que disponibilizava o seu material no socorro à população, mas também estes meios contavam com operários sem treino na árdua tarefa de extinguir incêndios. Todas as Associações de bombeiros voluntários que se constituíam, eram em poucos anos consumidas pelas despesas da sua actividade, morrendo a espaços entre cordial correspondência com a edilidade municipal, que nunca afiançou socorro a tais Corporações. 
O lugar de Cacilhas não era imune aos grandes incêndios, os quais sempre que surgiam, faziam levantar as vozes que defendiam a criação de um corpo de bombeiros naquele lugar. 
 
Na barbearia de Guilherme Silva juntava-se a plebe, em ganas de mover montanhas, mas sem argumentos válidos para edificar tais intentos. Umas dezenas de metros abaixo, no outro lado da rua, reunia-se a burguesia na casa de pasto “O Bilhar”, onde argumentos havia em demasia, mas as ganas eram desvanecidas em amenas tacadas de bilhar. 
 
É em Janeiro de 1891 que duas situações distintas agem enquanto agente comum no despoletar de consciências. 
A Associação dos bombeiros voluntários de Almada, ao fim de exactamente nove anos de existência, encontra-se sem meios de subsistência, entre graves problemas financeiros e um reduzido número de voluntários a Associação cessa funções. 
 
Um pequeno grupo de bombeiros da extinta Associação ruma então para Cacilhas e conforme reporta o jornal “O Puritano” na edição de dia 15 de Janeiro de 1891 «Reúnem na rua da Oliveira nº 11 e 13 em Cacilhas no próximo dia 18 pelas 9 horas da manhã, os sócios e mais promotores de uma nova associação de bombeiros voluntários que se esta organizando nesta vila, a fim de serem nomeados por eleição os corpos gerentes.»1 
Nessa reunião esteve presente o Chefe Amorim Barboza, dos bombeiros voluntários Belenenses, o qual propõe: «Na reunião que se realizou no dia 18 na rua da Oliveira em Cacilhas para estabelecimento de um corpo de salvação em caso de incêndio, resolveu-se não se constituir associação neste Concelho mas sim aceitar-se o oferecimento da de Belém que estabelece aqui a sua 2ª divisão, com a administração especial para a qual foram eleitos o Sr. Carlos Filipe da Silveira, presidente, Júlio Carlos Rodrigues, secretario, Paulo Nunes de Matos, tesoureiro.»2   
Não consegui precisar a data em que estes intentos tiveram inicio, porém Cacilhas era um meio pequeno e aqueles movimentos foram certamente comentados, enquanto uma afronta para os homens da terra. 
 
É então que a noite se ilumina, na madrugada do dia 11 de Janeiro de 1891, um intenso incêndio irrompe no centro de Cacilhas. O pedido imediato de apoio a Lisboa, pela parte do Administrador do Concelho, traduz-se em longas horas de espera, sendo o incêndio circunscrito a muito custo pelos meios existentes na Vila. O apoio imediato surge de duas embarcações da Marinha de Guerra, que avistaram os sinais luminosos dos candeeiros à beira rio, enviando um contingente de 36 praças das suas guarnições. Após várias diligências é finalmente enviado apoio de Lisboa, que embora tardio, contribui para que o incêndio seja extinto perto das duas da tarde. Entre os muitos feridos socorridos pela “ambulância” dos bombeiros voluntários da Ajuda, encontrava-se José Maria de Oliveira, o qual deu uma violenta queda quando subia por uma escada de mão para atacar o incêndio. 
Na manhã seguinte, barbearia de Guilherme Silva, batem-se punhos que firmam as estacas da criação de um corpo de bombeiros em Cacilhas, formado por homens da terra. 
 
Pela Rua Direita acima e abaixo, entre a barbearia e a casa de pasto, andava um homem «António Feio é o mentor, o impulsionador de toda esta grande obra humanitária»3. Com apenas 26 anos de idade este homem congrega o povo de Cacilhas, obtendo a sua unânime aprovação na criação de um corpo de bombeiros. Este envia no dia 14 de Janeiro de 1891, uma carta (por ele assinada) à Câmara Municipal de Almada, comunicando a criação do Serviço Voluntário de Incêndios de Cacilhas. 
 
É um grupo homogéneo de homens que se reúnem na noite de 15 de Janeiro de 1891, na casa de Guilherme Silva, situada no Largo de Poço nº2, para fundar o que hoje conhecemos como Bombeiros Voluntários de Cacilhas. 
Existem na realidade duas reuniões, onde é composta a Mesa de Assembleia Geral, com o intuito de criar o Serviço Voluntario de Incêndios de Cacilhas. 
A primeira no dia 15 e a segunda no dia 17 do mês de Janeiro de 1891. 
 
Na primeira reunião após proposta de Guilherme Silva são eleitos para constituir a Mesa da Assembleia Geral; Thomaz da Costa enquanto Presidente e António Feio como Secretário. Nesta primeira reunião são votadas seis propostas, que visam o suporte financeiro da Associação;
 
1ª – Que os sócios activos paguem como quota mensal a quantia de quinhentos reis.
2ª – Que se admitissem a esta corporação sócios protectores.
3ª – Que se pedisse a coadjuvação das companhias que tenham seguras propriedades tanto móveis como   
         imóveis neste Concelho.
4ª – Que se pedisse um subsídio à Câmara Municipal de Almada.
5ª – Que tanto para a admissão de sócios protectores como para se pedir a coadjuvação das companhias de  
        seguros se não use circulares impressas, mas sim de uma comissão nomeada especialmente para esse  
        fim.
6ª – Que se nomeasse uma comissão dentre as individualidades presentes afim de ir participar ao digno  
        administrador deste concelho, a formação desta sociedade e de lhe pedir toda a protecção que o  
        mesmo lhe possa e queira dispensar.
 
Todas as propostas são votadas favoravelmente, sendo introduzida uma modificação à quarta proposta; que para pedir o subsidio à câmara municipal deste Concelho se nomeasse uma comissão, em vez de se lhe dirigir este pedido por meio de oficio.   
 Por proposta do Presidente, ficou unanimemente aprovado que os sócios activos desta corporação sejam só do lugar de Cacilhas, havendo contudo excepção para: Júlio Teixeira de Almeida, Diogo António da Silva Reis e Augusto José de Mello Júnior, os dois primeiros da Vila de Almada e o terceiro do lugar da Mutela, os quais ficam admitidos como sócios activos. 
 
Por proposta de Guilherme Silva é afixado o número máximo de vinte elementos para o quadro de sócios activos; por Paulo Sauchner é proposto e aceite o pedido da protecção da Casa Real; é constituída uma comissão formada pelos sócios: António Serra, Thomaz da Costa, Raymundo Francisco da Silva, Paulo Sauchner, Guilherme Silva e António Feio, para irem apresentar a fundação da Associação ao Administrador do Concelho. 
A sessão é encerrada pelas dez e um quarto da noite e é assinada pelos seguintes elementos: Thomaz da Costa, Guilherme Paiva, Artur José Evaristo, Wenceslau Francisco da Silva, João Reis, José Henrique Correia, Paulo Sauchner, Guilherme Silva, Augusto José de Mello Júnior, Raymundo Francisco da Silva, João Baptista da Silva, Diogo António da Silva Reis, Júlio César da Silva, António Augusto Figueiredo Feio. 
 
Da reunião de dia 17 não temos qualquer registo em arquivo, nesta reunião terá sido votada a constituição dos corpos gerentes que encontramos em documentos posteriores e que fica formada do seguinte modo:
 
Mesa da Assembleia Geral 
Presidente; Thomaz da Costa
Secretário; Raymundo Francisco da Silva 
 
Direcção 
Presidente; Guilherme Silva 
Tesoureiro; António Thomaz de Carvalho Serra 
Secretário; António Augusto Figueiredo Feio
 
Nesta reunião seriam ainda elaborados os Estatutos da Associação. Compostos por 42 artigos, este documento escrito em cinco meias folhas de papel selado é entregue na 4ª repartição, 1ª secção da secretaria do Governo Civil de Lisboa, processo nº 23103. O Alvará é despachado a 16 de Julho de 1892, pelo Governador do Distrito de Lisboa4. Este documento está assinado com a data de dia 15 de Janeiro de 1891 e além dos elementos que assinam a reunião, com a mesma data, encontramos ainda: Avelino Emydio de Queiroz, António Thomaz de Carvalho Serra, Thomaz Wenceslau de Carvalho Serra e José Júlio Teixeira de Almeida.